Dos cafezais aos hospitais: história de lavrador de Monte Belo que virou médico será retratada em livro

13.05.2022

Livro livro dificuldades que superou para se tornar médico após 19 anos de estudos.

A história de um morador de Monte Belo (MG) que superou a baixa escolaridade e a falta de dinheiro para realizar o sonho de deixar de ser lavrador e se tornar médico virou um livro, que deverá ser lançado ainda neste mês. "Dos cafezais para os hospitais" narra as dificuldades superadas por José Reinaldo Lopes da Silva até ele conseguir realizar o seu ideal de vida.

"A gente espera que esse livro chegue até os jovens. Como bom mineiro, a gente é um contador de histórias. É um livro modesto, sem maiores pretensões, mas se ele ajudar uma ou duas pessoas a correrem atrás de um sonho às vezes esquecido, alguém que deixou de estudar, vou ficar feliz", disse o médico ao g1.

José Reinaldo tinha 20 anos quando decidiu largar a roça e voltar a estudar. O que ele não imaginava na época é que demoraria quase duas décadas, 19 anos, até ele ver seu sonho virar realidade. A história dele virou uma reportagem especial exibida pela EPTV Sul de Minas, Afiliada Rede Globo, em janeiro de 2017.

De família simples, o médico de 44 anos, que se formou aos 39, começou fazendo o curso de enfermagem e trabalhou como auxiliar até chegar ao sonho de se tornar médico. O livro relata as inúmeras dificuldades, inclusive a fome, que ele precisou superar até chegar ao seu objetivo.

"O livro conta a história de alguém do interior chegando na capital. Lá eu passei um pouco de necessidade, do ponto de vista de alimentos mesmo. A gente passou necessidade tanto financeira como de privação alimentar mesmo para chegar ao sonho", contou José Reinaldo.

A busca pelo conhecimento e pela transformação da vida despertou em José Reinaldo a paixão pelos livros. Ele conta que a baixa escolaridade faz com que até hoje ele tenha que correr atrás do "tempo perdido".

"Eu tenho que ler para suprir essa necessidade que tenho devido à baixa escolaridade. Ter abandonado o ambiente escolar em um período em que a gente estava em desenvolvimento, de fácil aprendizagem, ficou uma sequela. Então eu tenho que ler bastante para suprir essa sequela, até pra me comunicar melhor", contou.

Telecurso despertou vontade de correr atrás

José Reinaldo relata em seu livro como o Telecurso, promovido pela Fundação Roberto Marinho e que era exibido pelas manhãs na TV Globo, mudou sua vida e despertou nele a vontade de largar a vida que tinha para ir em busca do sonho de se tornar médico.

"Eu falo do ensino à distância, como me ajudou. Eu me via apaixonado pela medicina, querendo ser médico, mas sendo um analfabeto funcional, eu não saberia como retornar aos estudos. Aí eu conheci o telecurso. Em uma madrugada, eu estava saindo para trabalhar, mas estava chovendo muito. Eu liguei a TV que tinha em casa, ainda em preto e branco e lá eu vi o telecurso".

"Foi ali uma oportunidade que eu captei, porque depois eles falaram que era uma oportunidade para quem tinha parado de estudar. Foi esse gatilho que me fez retornar ao ensino supletivo e consegui terminar o Ensino Médio com muito esforço. Ninguém me apresentou o telecurso. Em uma madrugada, do nada, eu levantei e comecei a assistir e isso me ajudou".

Doença da irmã

O tratamento de uma doença da irmã de José Reinaldo fez despertar nele outra paixão que ele viria a descobrir: a dos hospitais.

"Eu não pensava em correr atrás dos estudos, em correr atrás. Depois desse episódio (da irmã), eu conheci o ambiente hospitalar. Ali eu despertei para a medicina, para a enfermagem. Aí que me levou a correr atrás dos estudos", contou.

José Reinaldo conta que primeiro terminou o Ensino Fundamental e o Médio pelo telecurso e só depois correu atrás do curso de enfermagem, que o deixou mais perto da medicina.

"Fiz auxiliar de enfermagem e isso me permitiu ter um ou dois empregos e através disso me permitiu cursar enfermagem, estar cada vez mais próximo do curso de médico. Nesse tempo a gente estudava a literatura, Guimarães Rosa, Machado de Assis, não era tão bom de fazer redação, então fui treinando", contou.

A concretização do sonho de se tornar médico rompeu um paradigma na família de José Reinaldo, que foi o primeiro a chegar à universidade, motivo de orgulho para os pais.

"Meus pais eram pessoas muito instruídas, espiritualmente fenomenais, mas que ao mesmo tempo não teriam condições financeiras de me manter na faculdade, nem no Ensino Fundamental. Eles saíam de madrugada para trabalhar e a gente ficava à mercê, imagina uma criança de 10 anos sem os pais, foi isso que aconteceu, evasão escolar, um desastre na infância.

"Pra eles foi uma coisa que não esperavam acontecer, ter um filho médico nessa altura da vida"

Mensagem para os jovens

Hoje José Reinaldo atua na Santa Casa de Areado como diretor-técnico. Inclusive a renda com a venda do livro será toda revertida para as Santas Casas de Monte Belo e Areado, cidades onde nasceu e onde atua como médico.

"É muito gratificante retornar para um lugar que até no livro eu cito, a minha Monte Belo, onde a vontade se fez maior que o meu desejo. Pra mim é muito gratificante porque aqui é minha terra, eu conheço o pessoal. É muito gratificante trabalhar no interior, até ser médico é mais fácil, que a gente conhece a comunidade, é muito bom", disse José Reinaldo.

Ele diz que tenta exercer no seu dia a dia um ensinamento que aprendeu com um professor durante sua época de acadêmico de medicina.

"Eu via ele falar para os acadêmicos que o paciente é um tripé: é o paciente, a doença e a família. Eu trago isso para a minha carreira de médico, saber lidar com o paciente, a família e a doença, o mais humano possível, é o que eu tento. Tem momentos que a gente pode não conseguir. É difícil, mas a gente tem conseguido", conta José Reinaldo.

José Reinaldo diz que um dos objetivos do seu livro é servir de inspiração para estudantes, que como ele, passam dificuldades para atingir seus sonhos.

"Brasil afora tem inúmeras histórias mais relevantes que a minha. Tem muita gente que estuda, se esforça com todas as dificuldades e não desiste. O que eu falaria é para que não desista do sonho, por mais que pareça impossível.

"A vitória chega, com batalha, coração, a vitória pode demorar, o meu caso demorei 19 anos para conseguir ser médico, mas com muita dedicação a gente consegue".

Foto: Divulgação

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Fonte - Reprodução g1 Sul de Minas

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